Todas as pessoas molhadas se parecem
Luis Fernando Verissimo
O banheiro é um local de introspecção. De certa maneira, tudo no banheiro nos devolve a nós mesmos. Os espelhos, as paredes ladrilhadas... Tudo bate e volta. Nossa imagem, nossa voz, nossos ruídos. É o lugar para ir, se você quer se encontrar. Ideal para você e você ficarem íntimos. Nas plantas arquitetônicas, muitas vezes identificam uma peça como “estar íntimo”, e é sempre o lugar errado: o verdadeiro estar íntimo é o banheiro.
Não é preciso haver nada sexual entre vocês. Vocês podem nem se tocar. No banheiro você é o centro de todas as suas atenções. Você esta cercado por você. Você é a sua obsessão, você só existe para você. “Tem gente”, é o que você diz quando está no banheiro e alguém quer entrar. Não “tem eu”: “tem gente”. E é o mesmo que dizer “nós estamos aqui, concentrado em nós mesmos, reverberando-nos, ecoando-nos”. “Tem gente” quer dizer “tem uma multidão!”. Num banheiro, mais do que em qualquer outro lugar, faz sentido aquela ideia de que a pessoa é ela e sua circunstância. Só que sua circunstância também é ela.
Ou então não é nada disso. No banheiro você está de volta à pia batismal. É isso. Mesmo que você só esteja lá para escovar os dentes ou procurar a aspirina, você está, simbolicamente, regredindo ao seu começo e ao começo de sua espécie. O banheiro é a pia ou o rio do batismo, é o útero da mãe, é o mar primevo do qual nossos antepassados saíram para esta nossa grande aventura sobre a Terra – enfim, o banheiro é sempre uma volta à água, de onde emergimos purificados, mesmo que não tenhamos feito mais do que um singelo xixi. Mesmo antes da água corrente, na época do jarro e da bacia e do buraco no chão, o banheiro representava a fonte da vida que visitamos todos os dias e...
Ou então, ou então... O banheiro é um lugar de fantasias. As pessoas não vão ao banheiro para se conhecer, vão para se imaginar diferentes. Quando você era pequeno, qual era o único lugar da casa em que podia se trancar sem que viesse alguém perguntar “por que você está trancado aí dentro?” O banheiro. No banheiro era o contrário, reclamavam quando você deixava a porta aberta. “Fecha essa porta que ninguém quer ver o que você está fazendo!” Assim, desde criança você se acostumou com a ideia do banheiro como um refúgio consentido, como o lugar em que você podia construir seu mundo particular sem ser interrompido. Quando gritava “tem gente!”, não queria necessariamente dizer que a gente lá dentro era você. Podia ser um outro, inventado. Você podia ficar na frente do espelho se imaginando outro, enquanto experimentava novas configurações para seu topete. Testando olhares e sorrisos para usar quando o seu outro saísse à rua, e arrasasse a vizinhança. E quem nunca se convenceu de que sabia cantar e poderia até arriscar uma carreira como profissional, baseado no seu desempenho sob o chuveiro, com os ladrilhos ampliando a voz a escalas pavaróticas? A fantasia não sobrevivia ao banho, mas, enquanto durava, era irresistível. Um lugar de fantasia, será isso?
Ou não é nada disso. O banheiro seria o grande equalizador social. Há, claro, banheiro de todos os tamanhos e tipos, mas não existe muitas maneiras de estar num banheiro, como existem muitas maneiras de estar num quarto, estar numa sala de jantar ou estar numa sala de estar. O assento da privada pode ser acolchoado e zebrado mas isso não altera o que se faz sentado nele, que todo o mundo faz do mesmo jeito. Num banheiro as pessoas são reduzidas às suas necessidades e funções – ou seja, à sua igualdade. A banheira de um pode ser uma piscina com redemoinhos e saboneteira dourada na forma de coquille St. Jacques e a de outro um tacho com um chuveiro em cima, mas você já notou como todas as pessoas molhada se parecem? Todo banheiro seria, portanto, uma lição de humildade e democracia, e quanto maior e mais bem aparelhado o banheiro maior e mais convincente a lição, pois o dono teria a evidência diária de que, mesmo com o papel higiênico substituído por algum dispositivo a laser ele o estaria usando para o mesmo fim que você e eu. É nos banheiros que a humanidade descobre o que tem em comum.
Ou talvez a fantasia mais universal sobre banheiros seja imaginá-los com outros dentro. Quando se especula sobre a vida privada de uma pessoa no fundo está-se sempre especulando sobre a pessoa na privada. Ou no chuveiro, ou cortando as unhas do pé no bidê. Porque o banheiro é o último recesso da privacidade de alguém, você não pode conhecer ninguém melhor do que no seu banheiro.
Não é uma fantasia de indiscrição gratuita, é uma fantasia de aproximação, de vencer barreiras e chegar não à nudez ou à intimidade da pessoa, mas a sua semelhança conosco. A um reconhecimento final de que somos todos irmãos sob a pele. Ou sob a toalha.
Domingo, 19 de agosto de 2007.
Desenvolvido por Carlos Daniel de Lima Soares.